quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Fordismo poético



A repetição, enquanto fenômeno social de alienação das pessoas para além de si mesmas, as mantém sempre como abrigo de si mesmas.

Afirmação contraditória, né?! Mas é o acontece...

O ser humano comum (99,9%) precisa repetir-se, encontrar as mesmas pessoas, encontrar-se nos mesmos lugares, criar tribos, locus indevassáveis em nome de uma criatividade inócua e viciada.

A poesia é criativa, então não engana as pessoas: ela é perigosa e, para a maioria, basta que ela se mantenha em folhas de papel. Mas a poesia (enquanto movimento cigano e ininterrupto) não precisa disso, basta abster-se do medo de morrer. Porque criar é morrer, e morrer (para os poetas) é criar. Mas morrer, infelizmente, significa para muitos "perder coisas"... "perder-se"...

Manter-se atrelado a ideias preconcebidas, tais como ideias políticas, estéticas, individualizadas (tipo: “eu já sei tudo, os outros é que têm que aprender”), não permite que o ser humano saia de frente do computador, saia de sua sala, saia de sua rua e fique apenas “jogando pedras” em vidraças inimagináveis... “jogando cartas” na praça (tipo: tenho todos os trunfos, não preciso de “poemas” e sim de meu ego poético...).

Voltando ao início, a poesia é o cativeiro dos que sonham em liberdade, mas vivem livres apenas porque sonham, porque escrevem, reescrevem, sobrescrevem, etc. Têm a malícia dos que mentem deliciosamente, impunemente, com carinha de bundinha de neném, enquanto as metralhadoras (imagens transformadoras) enferrujam em suas memórias.

Basta-lhes a repetição. Basta a ideia de que existem escolas, faculdades, estilos, tribos, círculos sociais míopes, metrificações, etc, para que todo o caos mantenha-se em ordem.

Mas já dizia Hélio Oiticica: “Seja um herói! Seja um marginal!” E isto, ao meu ver, não quiser dizer nada, porque se dissesse alguma coisa seria o presente se dissolvendo no passado e não absorvendo o escuro atraente do medo e do estranhamento do futuro.

Mas heróis e marginais povoam cemitérios, cárceres, desertos... que é de ondem vem as lótus, lírios, liberdades, verdadeiras revoluções!!!


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