sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Quebra-se o mar...

[ Consciência Negra - I ]


... mas não se quebra
seu movimento

quebram-se raízes
mas não se quebra
sua evolução

a origem africana
da pele da Terra
colhe frutos
ainda hoje

Vista-se do céu
Diz-se de um azul
Único

Vista-se da Terra
Faz-se um organismo
Vivo e dinâmico
Do orgasmo múltiplo
De raças e credos
Nações e continentes
Todos que, um dia,
Vieram dessa gente

Impõe-se o silêncio
mas não se quebra
seu horror

Gritam-se acima de tudo
E se perdem
De uma altura perdida
Porque nada na vida
É só rima
E flor

O que é igual
É monótono
É displicente
Átono
Monológico

O que é diferente
É altivo
É transparente
Tônico

Nas inconveniências
Nas incompletudes
Nas multirracionalidades
Brindamos a vida
Com o movimento
da História
em cada um
de nossos passos.




 [Consciência Negra - II ]



Todos nos banhamos
no mesmo rio...

Todos recebemos
a mesma chuva...

Todos cantamos
o mesmo hino...

Todos frequentam
a mesma escola
da vida...

Todos sonhamos
o mesmo sonho...




[Consciência Negra - III ]


Não há batuque
Qualquer truque rítmico
De qualquer espécie
Ou face
(Longe de ser
um enlace pouco)
Que não seja ataque
De um bongô
Repinique
Atabaque

Um carinho
um toque

O olhar interior
descolorindo
qualquer vestígio
de respiração
sem vida comum




[Consciência Negra - IV]


Sou branco
Apesar de ser pobre
Apesar de sofrer quieto
Apesar de escrever
Em pratos vazios

Sou branco na pele
Das ruas
Nas luas em botequins
Mulheres afins

Quis Deus
Que eu nascesse
Brasileiro
Algo como ser
Um continente vivo
Ardente
E inconstante


[Consciência Negra - V ]


Difícil
É a distância
Entre as cores

Impossível
A questão física
Ou metafísica

Fácil
São os corações humanos
em pleno ar
Pulmões abertos
A todos os horizontes
Pouco importa
Se quase destruídos
Em Canudos ou
Palmares

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